Sei, entretanto, que toda essa dor é fruto de um apego mesquinho e rudimentar: moldar o abstrato com as mãos: senti-lo e transforma-lo ao bel-prazer. Besta que sou, na unilateralidade atolada, que preciso antes desfazer-me do egóico para então ser livre e então terei olhos dentro apenas porque dentro será uma referencia apenas sentida. Sou todo emoção, mas escapo antes de sê-lo, pois uma vez assumido firmo um compromisso com o sentimento sentido e essa responsabilidade seria a morte de todas as minhas pretensões. Estou a emergência de um grito qualquer, preso que estou, tentando derrubar paredes a gritos e virar os olhos para ver se atravesso meu muro e descubro que por trás dele há o melhor de mim que respinga cego em ainda não ser. Mas sei que minha consciência ainda brincará de surpresas e sobressaltos. Pensar que posso ser surpreendido por mim me mantém acordado todos os dias. E rezo para o sol. Que não sou eu. Mas me acusa quem sou, espécie única.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
À Emergência de Um Grito Qualquer
Sei, entretanto, que toda essa dor é fruto de um apego mesquinho e rudimentar: moldar o abstrato com as mãos: senti-lo e transforma-lo ao bel-prazer. Besta que sou, na unilateralidade atolada, que preciso antes desfazer-me do egóico para então ser livre e então terei olhos dentro apenas porque dentro será uma referencia apenas sentida. Sou todo emoção, mas escapo antes de sê-lo, pois uma vez assumido firmo um compromisso com o sentimento sentido e essa responsabilidade seria a morte de todas as minhas pretensões. Estou a emergência de um grito qualquer, preso que estou, tentando derrubar paredes a gritos e virar os olhos para ver se atravesso meu muro e descubro que por trás dele há o melhor de mim que respinga cego em ainda não ser. Mas sei que minha consciência ainda brincará de surpresas e sobressaltos. Pensar que posso ser surpreendido por mim me mantém acordado todos os dias. E rezo para o sol. Que não sou eu. Mas me acusa quem sou, espécie única.
Meu Tempo
Meu tempo de maturação é indefinido e impenetrável. Não sou nada enquanto ele. Portanto não exijam de mim respostas se inda não as tenho. Meu trabalho comigo é incansável e eu já estou cansado dele. Mas é assim que funciono: me parasito até extorquir-me e obter-me o melhor abuso. Pois dessa lambida seca, que se torna um lixar agudo, é que vou me despedaçando e me reconstruindo. Não tenho como colocar-me no casulo, nem como depois ejacular-me a mim mesmo, mas no meu tato as coisas se sentem sem cardápio.
No meu tempo de maturação, as palavras perdem seu valor matemático. Pois quando falo céu, invariavelmente imaginamos aquela coisa azul que enxergamos ao inclinar a cabeça, estamos estritamente presos à imagem que fizemos previamente do céu. Mas isso, para mim, na minha possível maturação, é irreconhecível. Pois quero falar de céu como uma vastidão que funciona sozinha, como um limite que expande mas sempre teme a queda, quero colocar no meu céu o meu desconhecido, a minha amplitude remunerada, quero invadir no meu céu como um lado meu sem teto nem chão, quero que o meu céu seja sexo e poesia, ou gula e vitória, ou prazer e claridade. Sei também ficar preso no céu: recalcitrante, sei aprisionar-me nas minhas idéias imprecisas e não-numéricas: feito pássaro batendo na janela: me perco de mim no meu céu.
Quando estou nos meus momentos, não me dôo, apenas absorvo, cínico. Sou desorganizado e desatento. Sou patético e grosso. Não sei pensar no mundo quando não tenho certeza de mim. Não posso jamais apertar parafusos alheios enquanto estou frouxo e desengonçado. Preciso respirar e resguardar o que tenho de mais tuberculoso.
E quando meu tempo de maturação acaba, sou obtuso e nem me lembro mais. Me aguardo a cada instante, e cuido de mim porque também sou amor. Nesse tempo, me reconstituo e me tomo com calma e prazer. Mas um prazer poético. Quase estético. Só me resta o vazio bom, aquele que talvez tenha vindo à custa de dor e apego, mas que depois reboa bem saudável no peito, como uma velhice sábia e justa. Acolho e não temo mais temer-me.
No meu tempo ou fora dele, sou o que sou. Não por uma escolha escolhida, mas por uma atenção dirigida.
sábado, 1 de setembro de 2007
Lugares
Voltarei a vida normal; isto é, voltarei às aparências: e é fácil viver só de aparências: então vou deixar meu coração naquela estrela e seguir vivendo.
E de vez em quando, quando der saudades de mim, retornarei ao caminho que adivinhara e visitarei a estrela. Só para respirar um pouquinho. Farei isso todos os dias que me forem necessários. E lá ficarei vagando em encontro absoluto. Criarei algumas fórmulas, inventarei filosofias, redescobrirei a física quântica, e ainda trabalharia em projetos pessoais. Definiria todos os sentimentos humanos e intuiria os sobre-humanos também. E seria tão sábio e calmo que frutificaria todo apenas pela constância. Ai de quem me espiasse pois não veria nada. Lá eu cresceria como as árvores. Não seria julgado e nem abandonado: não haveria separação entre eu e nada, e então eu amaria como nunca se amou: sem gesto e só em silêncio.
E conforme for voltando, estarei mais e mais íntegro. E as pessoas e a crueldade – tão terrenas – não irão me abalar tanto. E estarei imune aos males pequenos: não porque tenho anticorpos, mas porque serei confidente íntimo de cada vírus. E a distância entre a estrela e a Terra irá cedendo naturalmente. Como o sorriso que se afrouxa nos lábios: traz pra perto. E poderei ir mil vezes. Até que seja uma coisa só. Babo só de pensar. Mas não contarei pra ninguém. Como a fórmula de um perfume invejado. Será meu segredo.
sábado, 25 de agosto de 2007
Em Nome do Filho
Eu não gosto de ter que ser melhor do que as pessoas que eu amo.
Mas eu sou.
E isso me trás uma culpa que só é acalmada quando levo um esporro.
Daí é como se eu me encaixasse em mim;
Viro uma luva cheia de humanidades, o que me trás um alívio lubrificado.
É quando fico quieto, aproveitando que me encontrei.
Coro, tímido.
O Nosso Comedido
Fantasmas pairavam e brincavam de gritar sem ninguém ouvir. Mas alguém ouvia. Pois quem grita, grita a si próprio. E este, seja quem for, ouve. Poderíamos viver desligado dos outros? Afinal, a visão é tela, o ouvido caixa e a consciência um projetor? Somos, então, um cinema? Que angústia é ver um filme e não poder sê-lo! As luzes se acendem, mas na verdade se apagam. E queda qualquer coisa que cala profundo: a bolha de sabão que explode e não é nada, só o que era. É possível sermos uma idéia do que fomos?
Afinal, se somos cinema, quem nos assiste? Quem é a emoção da pipoca, o brilho dos olhos, quem é o nome no final das cartas? Sou então a lâmpada seca. E a carta é o outro. Intangível. Invariavelmente hermético. O toque não é troca. Troca não é penetrar, é assumir.
Meu filme é meu grito. Sou meu fantasma. E ouço. Mesmo que o nome no final da carta não seja eu. Sou quem grita a carta. E sua existência depende de mim. Parem, pois, de querer escutar os gritos dos fantasmas, de separar a carta do leitor, de achar que o mundo tem uma beira e um bueiro!
Vamos falar de amor. Este é troca. Quando é que trocamos na vida? Não, tudo é toque, tudo é torto, tudo é sombra. Até a própria luz é a própria sombra. Enquanto quisermos atritar para unir, não seremos um só. Nossas casas são construídas assim. De atrito e cimento. O amor não é cimento. Nem é casa. O amor é duas mãos unindo-se em uma. E não existe uma que faz e outra que sofre. Existe um só. Dói ouvir isso, mas o amor não é ego. Não existe o eu nem o outro. Só o amor.
Por isso os fantasmas gritam. Por isso o cinema chora. E as cartas não dizem aquilo que buscamos ler. Nem a lâmpada consome o ato iluminado. Amor não é luz, mas a luz é amor. E nós também.
Quem és Tu
Pára. Quem és tu? Te procuro ou foges de mim? Te sou? Quem és tu que não apareces, e não calas porque não falas e jamais falas porque és tu? És o outro ou minha própria extensão? És meu braço, minha perna, meu cabelo? Ou comparar os cabelos é distinguir o meu chão e o teu teto? O meu quarto e o teu terço? Quem és tu se não marcas o começo? Tens tempo? Tens linguagem?
Ah, quem é esse que procuro e que me abafa? Quero ser para ti o tu, pois tu para mim é o que não sou, quero ser para ti – não te escondas! Não brinques de esconder-te, revela-te tu! Quem é esse outro ao qual clamamos e jogamos, ao qual nos reconhecemos: existo sem ti? Jogo a bola, mas se pego sou o tu eu-mesmo. O outro. Olho-te e ouço-me. Quem és tu que olhas o que eu olho e os meus olhos te refletem refletindo-me?
Esse tu que me desnuda, me desaquece, me calafria. Esse tu é vício engomado, é pele sem sentido, é desejo vomitado. Pretendes de esfinge, ah, faz um pacto comigo, deixa eu ver-te no retrato, tu que és vento?
Tu, apessoado, és uma fantasia que só existe em mim. Crio-te. Consumo-te. Mas sem saber-te, ou sequer ouvir-me, troco contigo meus espinhos e facetas, minhas caras são tuas e para ti comigo existimos. Não te abraço nem devoro, não te provoco. Ironizo-nos. Somos um só e tu nem sabes, tu não sonhas porque teus sonhos vãos nem nos pertence. Vou contar-te um segredo: é por isso que existe um Deus. Ele só existe enquanto existe um nós que o afirmamos. O criador é a criatura e a criatura é o criador. Indistinguidos. Compromissados. Numa firma secreta. Temos um pacto mútuo com Ele. E somos solidários por isso. Mas isso é segredo.
É por isso que tu me fazes sem querer. É por isso que tu revela-me em nem me conhecer. E eu te conduzo à minha vontade. Tu és todo e o sou também. É bonito! É bonito ser e ser o outro. Deixa-me berrar ao ar livre que eu e Deus nos demos as mãos e brincamos de molhar o mundo!
Tu um dia me perdoarás, mas é preciso matar-te para que eu seja. Esquecerei de ti e tua hipótese. Dessa possibilidade de projetar-me em ti a cada passo. E serei comigo tudo o que quiser. Sem ti. Aceito-te. Aceito o meu vazio não te pertencer, aceito a idéia de que és apenas, numa idéia. Acredito que minhas idéias são tão tuas quanto as tuas são as tuas. Te encontrarei em algum tempo e não saberei quem és tu. Caço-te ainda! E coço-me. Perdoa. Eu ainda não sei viver sem mim. Hermético que sou: só para ti.